segunda-feira, 10 de novembro de 2008

MENINAS

Uma de minhas lindas alunas adolescentes se aproximou, meio acanhada e sem jeito, para me dizer que iria ter que usar óculos por um tempo. Naquele exato momento, um resumo da minha conturbada adolescência parecia estar diante de mim.
Estávamos no ano de 1988, eu com apenas catorze anos, vivia minha primeira grande e frustrante paixão. Nem preciso dizer que os tempos eram outros e que eu ainda era uma, como dizem hoje, BV (boca virgem). Na verdade, eu representava a pureza e virgindade em todos os sentidos! Eu nunca tinha me apaixonado, nunca tinha sido magoada por um menino insensível, portanto nunca tinha experimentado o friozinho na barriga ao ver a razão de meus suspiros e devaneios, tampouco tinha sido varrida por aquele bando de perguntas e inseguranças de uma menina contaminada pela paixão. Sim, aos catorze, a paixão muito se assemelha a uma doença contagiosa que em pouco tempo se torna uma epidemia. De repente, todas as minhas amigas sofriam desse mesmo mal.
Pensando melhor, não me lembro de ter tido amigas verdadeiras aos catorze. Acho que estávamos todas sob algum efeito colateral da "paixonite aguda". Prefiro acreditar que esse tenha sido o motivo.
Como todo grupo, tínhamos a nossa "reunião". Em alguns lugares esse oásis teen era chamado de "brinca" ou brincadeira dançante, para os de língua menos preguiçosa para falar. Para falar, por que para beijar, todos pareciam bem dispostos a serem prolixos. Aonde cresci, a "brinca" era chamada de "bailinho". O "baillinho" geralmente, acontecia na garagem da casa dos pais de um dos "contaminados" e contava com um globo espelhado no teto, pouca luz, muita música lenta, várias cadeiras enfileiradas, refrigerente e pais espiando pela porta da garagem de tempo em tempo.
O esquema funcionava assim: as meninas ficavam sentadas nas cadeiras enfileiradas em um lado da garagem e os meninos ficavam nas cadeiras enfileiradas no lado oposto. A música rolava e nós meninas, sentadinhas, rezávamos para que nosso paquera nos tirasse para dançar. Se isso finalmente acontecesse, passávamos a rezar para que ele continuasse dançando com a gente por mais de uma música. Era a glória!
Recentemente contaminada, naquele ano fui convidada para meu primeiro, de muitos, chá de cadeira. Eu era muito alta para minha idade, magra demais, sem peito(uma tábua) e usava aparelho. O "bailinho" rolou e eu continuei parada, rezando. Ainda bem que não foi logo na primeira vez que eu fui parar em uma versão mais cruel dessa brincadeira, onde os não escolhidos terminavam dançando com uma vassoura. Quem será que teve essa idéia? Enfim, com apenas alguns arranhões em minha auto-estima, sobrevivi.
Decidida a tentar mais uma vez, coloquei uma roupa linda, uns band-aids nos arranhões e passei para o próximo "round". Ao chegar na garagem, logo de cara eu o vi. A tremedeira já tinha começado quando uma amiga me agarrou e disse: "Fiquei sabendo que ele quer dançar com você hoje!" Eu fiquei parada por uns segundos, tentando entender. Será que tinha sido a roupa? Sentei e a espera, dessa vez mais angustiante do que nunca, começou. Depois de umas três músicas, o improvável, finalmente aconteceu. Meu lindinho caminhava em minha direção. Eu só conseguia ouvir o meu coração batendo e então ele parou, tenho certeza de que naquele segundo, meu coração parou e só voltou a bater quando ele falou comigo: "Quer dançar?" Para uma menina, isso devia ser o mais próximo do céu. Mais do que ganhar uma Barbie nova! As Barbies estavam ficando para trás. Tínhamos as versões do Ken e do Bob em tamanho real e não precisávamos mexer os braços deles. Eles faziam tudo sozinhos e ainda por cima, falavam!
A música era "Coming around again" da Carly Simon. Ainda posso ouví-la perfeitamente. Nossas bochechas estavam coladas, um verdadeiro "cheek to cheek". A mão forte dele segurava a minha e como um cavalheiro, ele conduzia nossos passos. Ele não disse uma palavra. Eu também não. O silêncio era preenchido pela música que para mim dizia tudo: "I do believe, I believe in LOVE..." Eu estava tão extasiada com cada segundo que não me deixei abater pela incerteza de mais uma dança. Eu AINDA sabia aproveitar cada momento sem nenhuma pressa ou inquietação. Uma pausa para a próxima música e ele olhou nos meus olhos, me abraçou novamente e me conduziu por entre as suaves notas de mais uma música. Ao final da segunda música, o final do encanto. Fui "devolvida" às cadeiras e ali passei o resto da minha ilusão. Sem nada entender, senti. Senti um misto de alegria e confusão.
A primeira tristeza, aparentemente sem fim, e a primeira desilusão, aconteceram na manhã seguinte. A mesma amiga, que antes portava as palavras que eu tanto desejava ouvir, agora vinha me açoitar com a verdade imoral e insensível. Tudo não havia passado de uma aposta. Ele, aos dezesseis, ganhou duas caixas de cerveja de um amigo mais velho, para dançar com a "esquisita apaixonada". Eu, aos catorze, ganhei o primeiro vazio no coração.
De volta a sala de aula, no ano de 2008, olhei bem nos olhos de minha aluna e disse: " É por pouco tempo. Eu tive que usar aparelho. Hoje não preciso mais!" Ela sorriu como se entendesse que todas essas aflições da adolescência são temporárias.

3 comentários:

quarktop disse...

Carly Simon foi o melhor! tambem pude ouvir a musica dentro da cabeça, apesar de o laptop tocar uma outra coisa. Incrivel como a sensação carnal e primeva começa mesmo do "cheek-to-cheeck" das brincas de antigamente. Será que essa molecada ainda dança assim? Que delícia as festas com refri e cheetos! Valeu, Tchu!

Gabi David disse...

eu também tive meus bailinhos hahaha.. a terra era a mesma!!! Sei bem a desilusão de esperar na cadeira ou ficar brincando com a vassoura.. sem comentários. Tenho muita saudade de você e espero ter a chance de nos encontramos de novo, descompromissadamente, para uma longa e gostosa conversa regada à cerveja.. Adorei o blog.. qualquer hora conhece o meu "cantoflorvivencia.blogspot.com". Bjo Gabi David

One Different Way disse...

Oi Andréa,
qto tempo. gostei muito do blog. Essa do bailinho trouxe muitas lembranças. hahahaha
Beijão.
João Gabriel